sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

A mesa

             João Cabral de Melo Neto

O jornal dobrado
sobre a mesa simples;
a toalha limpa,
a louça branca

e fresca como o pão.

A laranja verde;
tua paisagem sempre,
teu ar livre, sol
de tuas praias; clara

e fresca como o pão.

A faca que aparou
teu lápis gasto;
teu primeiro livro
cuja capa é branca

e fresca como o pão.

E o verso nascido
de tua manhã viva,
de teu sonho extinto,
ainda leve, quente

e fresco como o pão.

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Feliz 2011 pra todos!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Sobre cobras e lagartos

- Filho, olha o sapato que ganhei! É de pele de cobra, de verdade!
Foram mais ou menos estas as palavras que desencadearam as bobagens que aqui trago. O meu estranhamento não foi pelo fato dela ter ganho um sapato, é verdade que nas condições atuais qualquer presente que se ganhe é motivo de festa, mas não sei se ficaria tão contente de ter ganho um sapato de pele de cobra, mesmo hoje.
A felicidade da mulher se assemelhava a de uma menina que ganha de presente a nova barbie fashion alguma coisa que acaba de ser lançada no mercado, em seu rosto havia um sorriso que ia de orelha a orelha. Levava no pé o objeto como se estivesse desfilando sobre uma passarela no mais importante evento de moda do mundo. O sapato a engrandecia.
Dizia toda fora de si que o material era pele de cobra, que entendia do assunto pois já trabalhara numa loja de sapatos, que isso custava uma nota preta. Chique pra caramba. Qual era minha função neste momento? Sorrir, o que mais podia fazer? Um sapato de cobra? Bacana.
Suspeito que o clímax do contentamento dela foi quando toquei as escamas de seu sapato, por insistência sua, é claro. Desculpem as mulheres, e principalmente, as cobras, mas não senti nada demais, não era tão maravilhoso quanto parecia, mas enfim...
Devo ser franco, assim que ouvi as palavras iniciais desta crônica (chamaremos isso assim, ok?), não houve como evitar de pensar: "que dó das cobras". Apesar da fama de ser meio traiçoeira, a acusam (injustamente?) de ser a responsável pela tentação do homem, e toda aquela lenda de como foi condenada a rastejar, blá, blá, blá... mas isso já faz tanto tempo, nem sabemos se realmente é verdade, e mamãe sempre diz que devemos perdoar os outros, não é?
No momento, se bem me lembro, estava sentado frente ao computador (pra variar), e ainda por um tempo ela lançou mais algumas exclamações sobre a cobra do sapato e visto que não fazia muito meu estilo percebeu o pseudo-entusiasmo do filho, então seguiu em seu desfile feliz da vida, procurando uma próxima vítima para dar o bote.
Contudo, esse episódio, aparentemente banal, me deixou duas coisas. A primeira, foi assunto para uma possível reconciliação com a escrita (se der sorte, ainda não esqueci como fazer). A segunda, um tanto a longo prazo no meu caso, mas pode ser que no seu funcione muito bem (o natal está chegando, pense a respeito), dar de presente um sapato de pele de cobra (legítimo, hein!) para uma mulher casada, madura e que necessite de um pouco de felicidade.
Ah, (agora me dirijo especialmente à estas mulheres) caso ganhe de presente um deste, por favor, não esqueça de me contar como foi, prometo mostrar mais interesse em seu sapato e quem sabe até toque suas escamas por livre e espontânea vontade.